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Sexta, 2 de abril de 2004, 14h11 
Após 10 anos, Kurt Cobain continua influenciando


Parece que foi ontem, mas já se passaram mais de dez anos desde que um sujeito franzino e aparentemente inofensivo surgiu repentinamente, tomando o rock de assalto e revolucionando o gênero.

É ainda mais difícil de acreditar que Kurt Cobain tenha acabado com a própria vida pouco tempo depois, no dia 5 de abril de 1994. Entupido de heroína e com um tiro na cabeça, seu corpo só foi encontrado três dias depois, ao lado de uma carta de despedida. Foi-se o músico, nasceu o mito.

Cobain, um compositor notável, conseguiu expressar os sentimentos de uma geração perdida e apática, tornando-se o maior nome do rock dos últimos tempos.

Mas afinal, o que o líder do Nirvana tinha de tão atraente? Por que o conjunto ainda é tão importante?

"O Nirvana era diferente de tudo, pois mesmo sendo gigante se comportava como uma banda de bar, especialmente o Kurt", disse à Reuters o jornalista André Barcinski. Ele é autor do livro Barulho, resultado de uma viagem para os Estados Unidos em 1991, quando a cena de Seattle e o selo Sub Pop começavam a despontar.

"Kurt foi a principal influência de uma geração e modelo de como agir, mostrando que qualquer garoto tocando numa garagem podia chegar ao topo", acrescentou ele.

Barcinski, que conversou com o grupo em Seattle, presenciou o estouro de Nevermind e conferiu os shows da banda no auge, que logo ficaram conhecidos pela quebradeira de equipamentos e por serem completamente imprevisíveis.

"Quando Nevermind saiu, foi um impacto absurdo e os shows eram insanos, pois a energia era incrível e a platéia ficava em transe. O Nirvana foi a mistura perfeita de rock pesado, punk e pop, que conseguiu atingir e agradar a todos."

Para o crítico e jornalista Álvaro Pereira Junior, editor do programa Fantástico, a influência do Nirvana transformou os anos 90 e foi muito além da música.

"O grupo acabou com a divisão que havia entre o mainstream e o alternativo", disse Pereira Junior, que viu uma apresentação da banda em 1990, antes do estouro de Smells Like Teen Spirit - o último hino do rock.

"E mesmo em outras áreas, mostrou que era possível tirar do gueto a cultura alternativa e até formas de comportamento. A banda transformou o cenário pop de uma maneira que permanece até hoje."

LEGADO INCONTESTÁVEL
Talvez seja por isso que Kurt Cobain e sua música sejam tão relevantes atualmente. Bandas como Queens Of The Stone Age, Weezer e, lógico, Foo Fighters, provavelmente não seriam o que são se um dia não tivesse existido o Nirvana.

Ûltimo ícone do rock, Cobain era uma figura deprimida, engolida pelo sucesso - só nos Estados Unidos, o grupo ultrapassou a marca de 24 milhões de discos vendidos em apenas seis anos - e que mudou para sempre o mercado fonográfico.

Desde sua morte as gravadoras começaram uma busca incessante atrás do "novo Nirvana", sem nenhum sucesso.

No Brasil, os Titãs chegaram a contratar Jack Endino, produtor do disco do Nirvana Bleach, para o álbum Titanomaquia, de 1993, e mais recentemente a roqueira Pitty lançou um CD que parece feito de covers grunge.

Cobain foi responsável por uma nova estética que mudou a indústria cultural, inviabilizando o termo "rock star" e o rock cheio de excessos que dominou as paradas nos anos 80. Era chegada a hora de temas angustiantes e sensíveis.

"Kurt ressuscitou a importância de escrever bem uma canção, que não fosse só barulho ou atitude. Ele foi um dos alunos mais aplicados que John Lennon e Paul McCartney fizeram", explicou Álvaro.


fonte: Reuters

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